Cotidiano manauara, vida urbana no meio da Floresta.

Teatro Amazonas, Manaus, Brasil

Teatro Amazonas, Manaus, Brasil

Toda cidade merece uma visita: esta é uma das minhas filosofias. Certamente, cada canto deste vasto mundo reserva momentos especiais para você, basta olhar com atenção e estar aberto para ser surpreendido pelas coisas mais básicas, naturais e óbvias, muitas vezes nem tão óbvias, naturais e básicas assim. Manaus mais uma vez comprovou minha teoria, mesmo que muita gente tenha me dito que é uma cidade com pouca coisa para fazer. Oposto das valiosas dicas recebidas do meu primo Léo, que morou por um tempo na cidade e olha que eu nem consegui fazer tudo o que ele sugeriu.

Adepta irreversível do turismo de cotidiano, de fato, a ida para Manaus por conta do delicioso evento Navegar é Preciso não poderia ser apenas nesta realidade paralela de um barco literário, apesar de saber que são escapadelas deste tipo que carregam minhas baterias de inspiração e determinação. Antes do cruzeiro, explorei Manaus e conheci pessoas magníficas. No final de semana seguinte, me embrenhei no coração de comunidades ribeirinhas para conhecer a realidade de uma parte do Brasil ainda desconhecida para mim, tema certo do próximo post.

Minha predileção por conhecer vida real, pessoas no seu dia-a-dia, seus costumes e hábitos, ficou evidente quando um dos colegas navegantes me perguntou se eu fazia sempre viagens culturais assim, especialmente depois que contei um pouco sobre os magníficos eventos culturais de verão em Edimburgo, incluindo o Festival do Livro na Escócia. Respondi que sim, se não restringirmos cultura apenas pela expressão artística e literária, uma vez que entendo cultura também pelas manifestações cotidianas que acontecem nas ruas, nas casas, nas comidas, nas músicas, na linguagem, nos hábitos… Cultura, palavra de conceito tão amplo, que inclui sua expressão intelectual, que muitas vezes retrata exatamente essa realidade cotidiana.

Mercado Municipal de Manaus

Mercado Municipal de Manaus

Mercado Municipal de Manaus

Mercado Municipal de Manaus

Em Manaus, um cotidiano bastante urbano, mas cheio de símbolos de requinte histórico misturados à presença marcante da maior floresta do planeta. O encontro de muitos universos e faces.

O Mercado Municipal, por exemplo. Estrutura francesa onde acontece a venda artesanato indígena e iguarias nacionais.

Um restaurante flutuante integrado ao imenso e misterioso Rio Negro, reunindo jovens, famílias e visitantes, não apenas na degustação da rica culinária local, mas também a paisagem exuberante.

Ponta Negra, Manaus, Brasil

Ponta Negra, Manaus, Brasil

Ponta Negra, praia de rio que justo no domingo em que eu estava na cidade foi surpreendido por jacarés. Contraste da natureza com um dos bairros mais urbanizados e cheios de prédio no município.

Trânsito meio salve-se quem puder entre os carros, muitas vezes por ruas onde a floresta ao redor impõe a sua presença, como a Estrada do Turismo, alternativa que liga o aeroporto à Ponta Negra e principais hotéis da cidade.

O imponente Teatro Amazonas, referência tradicional, também para a compra de artigos de artesanato local na praça em frente, porém no preço característico para turistas estrangeiros.

Obra na Pinacoteca do estado do Amazonas, Manaus

Obra na Pinacoteca do estado do Amazonas, Manaus

A curiosa Pinacoteca do Estado, que reúne de obras brasileiras à coleção de moedas.

O Zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) do Exército Brasileiro que reúne animais da região, que possivelmente você poderia ver logo ali. Pelo menos foi essa sensação quando vi a Capivara e me lembrei do Parque das Nações Indígenas em Campo Grande (MS), mesmo falando de biomas absolutamente diferentes, pois Pantanal não é Amazônia, sempre vale lembrar.

CIGS, Manaus

CIGS, Manaus

A face manauara deste Brasil, gigante e diverso pela própria natureza, de seu ambiente e seu povo. Afinal, sempre as pessoas serão capazes de dar o colorido especial de cada experiência em qualquer lugar onde estivermos. Em Manaus não poderia ser diferente. Neste ponto, a hospitalidade brasileira é, de fato, singular, traço característico da nossa cultura. Realmente, a gente tem uma capacidade quase natural de fazer as pessoas se sentirem em casa no primeiro contato e a abertura para bonitos laços de amizade, mesmo que breves. Traço muitas vezes difícil de ser interpretado pelos estrangeiros habituados a relações mais formais e de interface, em nossa visão, mais distante.

A receptividade e energia inesgotável de Eva, minha anfitriã do Airbnb, médica, dentista, professora, workaholic, conselheira definitivamente deu o tom de um final de semana muito acolhedor. Além do carinho em me receber e apresentar suas amigas, a entusiasmada Angela e a determinada Rose, fizeram completa diferença nos finais de semana antes e depois da literatura flutuante. Afinal, histórias não faltaram neste final de semana com essas três figuras, inspiração para ratificar que a vida acontece onde colocamos energia e disposição, basta olhar com atenção.

Rio Negro, Manaus

Rio Negro, Manaus

Navegar é preciso

Pôr-do-sol no Rio Negro no primeiro dia do cruzeiro Navegar é Preciso

Pôr-do-sol no Rio Negro no primeiro dia do cruzeiro Navegar é Preciso

“Literatura flutuante”. Xico Sá, um dos convidados da terceira edição do “Navegar é Preciso”, evento promovido pela Livraria da Vila e Auroraeco, de 29/04 a 03/05, não poderia ter definido melhor o que foi a última semana de imersão literária em meio ao cenário exuberante do Rio Negro no Amazonas. Conhecer a Amazônia sempre foi um sonho. Combinar essa viagem com uma das minhas paixões, a literatura, tornou-se uma oportunidade singular. Compartilhar por cinco dias a delicadeza confiante de Marina Colasanti, a poesia reflexiva de Affonso Romano de Sant’Anna, a espiritualidade acolhedora de Frei Betto, a irreverência bem-humorada de Xico Sá, o conhecimento descontraído e inclusivo de Cadão Volpato. Além de tantas outras pessoas interessantes e cheias de histórias, que trocavam experiências e percepções nas conversas ao longo do dia. Como complemento, a gostosa sinfonia promovida pelas apresentações musicais do grupo Coisa Fina e o presente carinhoso da leitura de Clarice Niskier, incluída de improviso e extremo êxito na programação. Tudo isso em meio a natureza que impõe sua grandeza e beleza, que nos faz perceber que somos parte de um universo tão maior do que nós mesmos.

Amazônia, Brasil

Amazônia, Brasil

Boto em Novo Airão, Amazonas, Brasil

Num blog que inclui viagens e tudo o mais que passa pela minha cabeça, não posso deixar de contar um pouco como foi a experiência, mesmo que seja praticamente impossível descrevê-la. Apesar de não ser o estilo do blog, acho que não vou resistir a um tradicional relato de viagem e “cobertura” das apresentações. Afinal, foi uma programação intensa. Entre uma mesa literária e outra, vimos o encontro das águas, os botos de Novo Airão, os igapós (florestas alagadas), os igarapés (caminho nas águas), a praia de Tupé no meio do rio Negro. Infelizmente meu grupo não viu jacarés na atividade noturna, mas sim uma perereca que rendeu um belo alvoroço entre a mulherada daquele barco.

Encontro das Águas - Rio Negro e Rio Solimões, Amazonas, Brasil

Encontro das Águas – Rio Negro e Rio Solimões, Amazonas, Brasil

Vale um destaque para a meditação matutina com Frei Betto, que já ajudava a começar o dia com uma bela energia reforçada, após a renovação de cada manhã que entrava pela janela da cabine, propositadamente aberta, para a entrada luminosa dos raios do belo amanhecer no Rio Negro. E muitas reflexões, dos contos de fadas à política brasileira. Questões que não têm resposta simples, mas que merecem o pensamento crítico e observação atenta. Certamente renderão outros posts neste blog que trata de tudo um pouco.

Igapó (Floresta Alagada)

Igapó (Floresta Alagada)

  Autores e Mesas Literárias (minhas percepções)

Frei Betto estreou as mesas literárias, na terça-feira, trazendo espiritualidade e conexão com transcendente. Postura muito além da religião, pois, mesmo não sendo católica, compartilho de muitas de suas crenças e valores. Ao contar momentos de sua história, incluindo a prisão durante a ditadura e o retorno a liberdade, reforçou a importância de um propósito pessoal, ao se manter ocupado com o conhecimento e até aulas durante o período de reclusão. Sentido para a vida que vai muito além do seu trabalho.

A única mulher da programação, Marina Colasanti, encantou com sua doçura e feminilidade, ao mesmo tempo em que se posiciona de maneira forte e segura. Também surpreendeu a todos ao praticamente recitar seu conto de fadas a ser lançado de memória. Eu, particularmente, me emocionei muito quando ela falou que gostava de trocar ideias com Affonso Romano de Sant’Anna, seu marido, ao longo da construção de suas obras. Não é trocar ideias com qualquer um, apenas com ele. Casal inspirador no carinho e olhares de cumplicidade.

Justamente Affonso Romano, com sua sabedoria e experiência, prendeu a atenção na manhã do terceiro dia do evento. Sabe aquelas situações em que você busca ficar com os ouvidos muito atentos para não perder uma informação, uma estória, uma frase? Autor do poema e pergunta que continua atual, Que País é este?, muitas de suas palavras ajudam a refletir sobre identidade, cultura e história. Como em quase toda mesa, saí com uma questão que não tive tempo de fazer. Minha sorte, pois tive a oportunidade de conversar pessoalmente com ele a respeito da pluralidade da identidade brasileira, misturada e diversa em sua cultura e senso de pertencimento. Assim, fui presenteada pela generosidade e simpatia do casal que virei fã de carteirinha.

No contraponto divertido, Xico Sá, como esperado, arrancou boas risadas da plateia com os causos de sua história e perspectivas curiosas sobre a vida, relacionamento e, é claro, futebol. Ao contar as peripécias de seus personagens e algumas correlações com sua vida. Por conta do evento, ele interrompeu por alguns dias a atualização de seu blog, afinal, no meio do Rio Negro não tem internet, né? Uma das conclusões expostas nesta mesa, foi tema do seu post de retorno, sobre a importância de uma decepção para um homem. Reflexões de um confesso romântico, porém de dicas e constatações pouco convencionais, por assim dizer.

Cadão Volpato foi o principal mediador, exceto na mesa de estreia de seu romance Pessoas Que Passam pelos Sonhos, perfeita substituição de última hora do chileno Alessandro Zambra, que infelizmente não pode estar presente. Bom, eu já era fã de suas mediações na Flip e Festival da Mantiqueira, pois realmente ele estuda a obra de seu entrevistado e sabe como deixar as pessoas à vontade. Falava empolgado de seu romance, dos personagens distraídos que, por essa distração, podem viver coisas inusitadas na sua história. Acho que não é muito diferente na vida, não é mesmo?!

Navegar é Preciso 2013 - Mesa de Encerramento

Navegar é Preciso 2013 – Mesa de Encerramento

Na última mesa do evento, com a participação de todas as atrações da programação, o encerramento sincero do representante do grupo Coisa Fina me emocionou.” Se fosse para ler algum livro naqueles dias, não leria nenhum”, confessou. Como explicou, quando lemos um livro, nos transportamos para uma realidade diferente, o que não seria seu desejo naqueles intensos dias dedicados à literatura, à arte, à natureza. Eu, que já tinha dois livros comigo e comprei mais três, também não li nenhuma página sequer. Afinal, já havia me transportado para outra realidade de uma literatura flutuante no meio da maior floresta do mundo, cheia de biodiversidade e beleza.

Grupo Coisa Fina

Grupo Coisa Fina

Conhecer o Brasil também é preciso…

Palácio Rio Negro, Manaus, Amazonas, Brasil

Palácio Rio Negro, Manaus, Amazonas, Brasil

Existe uma curiosidade nata daquele que se denomina um viajante. De certa forma, somos todos viajantes nesse planeta grande, ao mesmo tempo pequeno, na jornada da vida, seja lá qual for sua crença. No entanto, a sede de conhecer mais, de explorar mais, de aprender mais na experiência prática cultural de visitar novos lugares e conhecer novas pessoas é insubstituível.

Depois de ser picada pelo mosquitinho da viagem, é difícil ficar muito tempo parada. A vontade de vivenciar novas experiências fica cada vez mais latente. Na correria do dia-a-dia, também é preciso foco e disciplina para fazermos aquilo que nos preenche. Sorte quando conseguimos realizar o trabalho que nos engrandece e, ao mesmo tempo, dedicar o tempo para os projetos pessoais. No meu caso, um deles certamente é viajar e conhecer novos lugares.

Se o mundo é grande, o Brasil também é imenso. Após conhecer um pouco mais o velho continente, o desejo por efetivamente conhecer bem meu País ficou também maior. Diversidade de cultura, natureza e modos de vidas que merece um olhar mais atento. Fico feliz por ter aceitado o convite da querida Dani, praticamente na semana que havia colocado os pés de fato em São Paulo, para juntar duas das minhas paixões: viagens e literaturas. Conhecer um pouquinho da Amazônia e uma imersão na deliciosa literatura. Viagem ainda para começar, mas já cheia de expectativas de uma alma sonhadora e viajante, tanto por novos lugares quanto por livros, como já havia ficado evidente durante o sabático. (http://aquioualgumlugar.com/2012/08/21/porque-os-nerds-tambem-amam-e-tambem-compram/)

Claro, uma viagem também é sempre uma justificativa para explorar a região para onde se vai. Neste caso, a capital amazonense Manaus. Uma cidade extensa e espalhada, de pessoas acolhedoras, simpáticas e falantes. Uma das faces do Brasil, com herança indígena, cabocla, mas também forte influencia europeia e tradicional. Autêntica mistura brasileira, mistura de urbanização e floresta, mistura de ritmos, como uma das rádios da região de literalmente toca de tudo, e muda de estilo musical sem qualquer transição suave. Calor no clima e nas relações, pessoas que realmente te ajudam a se sentir em casa e acolhidas. A marca única quando se viaja pelo Brasil: os brasileiros. Bora conhecer um pouco mais do norte do País!

Rio Negro, Manaus, Amazonas, Brasil

Rio Negro, Manaus, Amazonas, Brasil

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A rotina nos engole, ou nos deixamos engolir por ela.

busy time

É incrível, já estou seis meses de volta. Passou rápido, muito mais rápido do que a viagem, deixando claro como o tempo é absolutamente relativo. O mais curioso é notar o quanto faz diferença a consciência ao momento presente, como dizem os sábios. Consigo facilmente lembrar meu roteiro, a sequencia dos meses, até os dias durante a viagem com muito mais clareza do que as semanas anteriores. Ok, minha memória não é magnífica que lembra tudo sempre em detalhes. Esses dias mesmo queria lembrar onde se passou um caso no metrô, mas por nada identifico onde ocorreu, só a cena mesmo (eventualmente ainda a descrevo).

Estar presente. “O momento presente é o único que realmente existe”. Clichê, mas realmente aquela atenção despretensiosa de viver cada momento com o melhor do que ele tem a oferecer. A aceitação de que o melhor lugar onde você poderia estar é onde você está mesmo. Perceber a beleza de passar uma tarde de sol lendo em um parque ou persistir com o passeio mesmo embaixo de chuva forte, vestindo galochas, capa de chuva e guarda-chuva.

“O tempo rende muito quando é bem aproveitado.” Goethe

Evidente, quando estamos viajando, sem exatamente nenhum compromisso ou preocupações excessivas na mente, é muito mais fácil colocar consciência no momento presente. Estou há quase três meses de nova moradia em Sampa e definitivamente dedicada aos projetos de consultoria em comunicação, me vejo novamente na armadilha da rotina do “tenho muita coisa para fazer”, e um pouco menos de atenção efetiva ao momento. Em contrapartida, muito mais focada na “tarefa”, por assim dizer. Isso porque nem posso falar de uma rotina diária, com trabalho num horário fixo, em um lugar pré-determinado. A flexibilidade do trabalho de consultoria não poderia ser mais aderente ao meu momento atual. Depois de um período forte de reflexões, seria muito difícil voltar para uma rotina muito rígida de uma jornada de trabalho majoritariamente medida pelo horário. Não sei, me adéquo mais ao sabor do desafio a ser realizado, do resultado a ser entregue do que necessariamente uma certa quantidade de horas a cumprir. Além disso, nesta nova fase, aprendi que meu trabalho “define parte do que eu sou, mas não define a minha vida”.

De qualquer maneira, por amar o trabalho e, ao mesmo tempo, me envolver fortemente com a correria enlouquecida da cidade que nunca para, cá estou eu novamente cheia de compromissos, trabalho, agenda e absorvida pela necessidade e o hábito do “tanta coisa para fazer”. Mas será que a conta fecha?

A rotina nos engole e nos deixamos engolir pelas costumeiras (e reais, mas talvez desproporcionais) preocupações com o dinheiro que precisamos para pagar o aluguel, o transporte, a comida, a saúde, o lazer… Há pouco tempo li um post que um dos meus conhecidos compartilhou em alguma das redes sociais que me balançou, especialmente pela reflexão se, de fato, precisamos mesmo daquilo que pensamos. O questionamento é incrível, pois talvez seja, enfim, uma necessidade criada pela falta de tempo para fazer as coisas que precisamos e queremos, mas não podemos porque não temos tempo suficiente. Equação completamente inversa do período de viagem, quando você tem muito mais tempo, mas não dinheiro.

Veja bem, não é uma dicotomia lazer versus trabalho. Pelo contrário, estou super entusiasmada com os projetos de consultoria em andamento e em prospecção. Mas é incrível como, de repente, já estamos tão envolvidos nesta correria sem fim e, exatamente, para quê? O desafio é justamente conciliar e priorizar. E ficamos tão preocupados em ganhar um dinheiro para gastar desnecessariamente, porque viver bem não precisa ser tão caro. De novo, será que a conta fecha?

“One of the most surprising discoveries I made during my trip was that I spent much less per month traveling foreign counties (including countries more expensive than Canada) than I did as a regular working job back home. I had much more free time, I was visiting some of the most beautiful places in the world, I was meeting new people left and right, I was calm and peaceful and otherwise having an unforgettable time, and somehow it cost me much less than my humble 9-5 lifestyle here in one of Canada’s least expensive cities.” David Cain, Blog Raptitude.

Absolutamente verdadeiro. Muita gente me pergunta como eu fiz para sustentar a viagem e erroneamente (e infelizmente) alguns acreditam que eu tenho mais dinheiro do que eu tenho. Porque há a falsa impressão de que viajar é caro. Não é! Desde que você não gaste com aquilo que é absolutamente desnecessário, quando se tem mais tempo para usufruir, mas uma quantidade limitada de recursos financeiros, até porque é um período que não há entrada no caixa. Diferente de quando estamos tão atolados de trabalho, com recursos que entram, mas menos tempo disponível. A alternativa comum é gastar, ou, muitas vezes, até um mecanismo inconsciente de autobonificação pelo cansaço. A sensação do “eu mereço” depois da semana trabalhando mais de 16 horas por dia ou meses sem férias e temos apenas aquela uma semana de descanso. O texto do blogueiro canadense merece uma leitura, pois levanta estes questionamentos que raramente são realizados em nosso dia-a-dia, mesmo que seja para discordar…

Relembrei este post também ao ver a iniciativa, sensacional, do BoicotaSP. Hum… R$ 8,00 em um refrigerante, R$ 25 numa porção de batata, R$ 6,00 num café, entre outras bizarrices denunciadas pelo site… Um dia desses no aniversário de uma amiga num barzinho na Faria Lima, me assusto com o preço de uma garrafa de cerveja de 600 ml custando R$ 12, quando são, no máximo, R$ 4,00 no mercado. Mas não vi ninguém questionando, como se fosse normal. “Ganhamos/trabalhamos para isso!”, já ouvi algumas vezes entre amigos, agora com mais atenção, justamente na intenção de compensação. Mas, será que a conta realmente fecha? É realmente para gastar com preços exorbitantes que ganhamos? Se tivermos tempo suficiente para as coisas que nos importam será que precisaríamos pagar preços tão altos para isso? Não sei, esses questionamentos estão cada vez mais presentes em minha mente.

E as redes sociais só ajudam a continuar nesses questionamentos no mar de coisas inúteis e úteis que temos acesso com ela. Enfim. Novamente, li um suposto pensamento de Steve Jobs que só reforça meu questionamento, apesar de na prática eu não veja uma mudança no curto prazo. Pelo que pesquisei é dele mesmo, mas sempre tem que checar, não dá para acreditar em tudo que se vê nas redes, não é mesmo?!

“Cada sonho que você deixa pra trás, é um pedaço do seu futuro que deixa de existir”. A frase novamente mexeu comigo. Voltei da viagem com tantos projetos e sonhos na cabeça e o que farei com eles? Estou adiando, pela correria do “muita coisa para fazer”, mas não há de ser para sempre, novamente absorvida pela rotina e pelas preocupações do dia-a-dia. Presos à correria e rotina, será que a conta fecha?

Pragmatismo não é praticidade

treadmill

Pragmatismo:

1. FILOSOFIA teoria segundo a qual a função essencial da inteligência não é fazer-nos conhecer as coisas, mas permitir a nossa ação sobre elas (H. Bergson, filósofo francês,1859-1941; W. James, filósofo americano, 1842-1910; E. le Roy, filósofo francês, 1870-1954)

2. FILOSOFIA teoria segundo a qual a verdade de uma ideia reside na sua utilidade, definindo-se pelo seu êxito (W. James, filósofo americano, 1842-1910; J. Dewey, filósofo americano, 1859-1952)

Fonte: Dicionário Porto Editoria

 

Praticidade: Qualidade de prático

Prático: adj (gr praktikós) 1 Pertencente ou relativo à prática ou ação. Antônimo: teórico. 2 Que resulta de prática ou ação, nela consiste ou a envolve: A aplicação prática de uma regra; demonstração prática do seu poder. 3 Pertencente ou ligado às atividades, negócios ou trabalhos ordinários: A vida prática. 4 Próprio para ser usado ou aplicado na prática ou a ser adaptado ao uso efetivo: Método prático; dispositivo prático; veste prática. 5 Inclinado ou hábil para a prática ou para as atividades úteis. 6 Exercitado, experiente, versado. 7 Que exerce profissão liberal, sem ser diplomado. 8 Filos Que convém à ação; que é utilitário; que é engenhoso e adaptado ao seu fim; que determina a conduta. sm 1 Homem experimentado. 2 O que exerce profissão liberal sem ser diplomado. 3 Piloto conhecedor de zonas marítimas ou fluviais, difíceis à navegação. 4 Auxiliar técnico de navegação que exerce a praticagem. 5 Mil Oficial sem curso e que seguiu os postos pela prática. 6 pej Tarimbeiro.

Fonte: Michaelis UOL

Ao primeiro olhar, parecem sinônimos. Pragmatismo e praticidade como ação. Frequentemente atribuímos praticidade às pessoas pragmáticas ou vice-versa. Depois de um olhar atento para pessoas e situações com alto teor de ideias e atitudes colocadas efetivamente em ação comecei a me questionar se, de fato, são sinônimos. Em minha opinião, nem tanto.

Conheço muita gente pragmática que não é nada prática. Em contextos onde o “fazer” toma importância demasiada, há muito pragmatismo e pouca praticidade, no sentido de escolher, priorizar e estabelecer o que é mais importante. Você já reparou como há o incentivo claro de que temos sempre que estar fazendo alguma coisa?! Até o ócio deve ser criativo para fazer um trocadilho nada justo ao conceito. Eu mesma dificilmente consigo ficar parada a não ser quando estou dormindo. Seja como for, sempre estar fazendo alguma coisa, ler um livro, ver um filme, lavar a louça… Fazer, fazer, fazer.

Partir para ação então pode facilmente perder seu cunho prático, lógico, racional. Posso dar o exemplo engraçado de quando estou organizando a casa ou guardando a roupa limpa. Parece “trabalho de formiguinha”, como já ouvi: vou e volto mil vezes de um lado para o outro, guardando cada coisa que encontro por vez, ao invés de juntar em grupos semelhantes. Principalmente quando o volume é muito grande e não sei por onde começar. Começo e vou fazendo, sem pensar muito, mas, basicamente, tirando a bagunça da frente. Literalmente assim, coisa a coisa, conforme pego um item na mão, vou guardá-lo no seu lugar, mesmo que o próximo tenha que ser guardado no mesmo armário e eu vá fazer o trajeto de novo em menos de dois segundos, por exemplo. É, o pragmatismo de partir para a ação de arrumar as coisas e ver o movimento e o resultado, mesmo fazendo aos poucos e levando mais tempo.

Adotar esta atitude para arrumar a casa até pode ser uma alternativa, pelo menos foi a minha quando tive que desfazer uma casa inteira antes da viagem, muitas vezes porque não tinha ideia por onde começar especialmente em função da ansiedade. No entanto, deve ser muito difícil se esta for a postura adotada para a vida como um todo, tanto no trabalho quanto nos desafios pessoais. Sair fazendo, partir para a ação, colocar a mão na massa, sem avaliar, pensar e programar como poderia ser realizado de maneira mais fácil e mais lógica.

O famoso jargão “planejar antes de executar”. Mas não apenas planejar no cunho estratégico. Estou falando também de planejar no sentido de praticidade, nos passos lógicos que podem focar as energias, agilizar etapas e facilitar os processos. A ânsia de resolver um problema versus a análise da real causa e dos recursos disponíveis.

Nem sempre dá para planejar antes. Muitas vezes é preciso começar de uma maneira, mesmo que seja para mudar depois. Escrever um texto muitas vezes é assim, é preciso começar a colocar as ideias no “papel” (na tela do computador mesmo) para depois de começado ter o que alterar e melhorar. Mais fácil mudar do que criar. Porém, se puder aliar a praticidade à ação, bom, aí o conceito de pragmatismo alcança seu real significado. Ao menos me parece.

Ouvir ou dizer? Compartilhar ou distribuir?

Três macacos

A reação desconcertada da minha colega de projeto foi o reforço da minha percepção. Era uma pergunta simples, a resposta, porém, reveladora.  Conversando sobre papeis, responsabilidades e modos flexíveis de trabalhar, perguntei como, por exemplo, ela explica seus novos projetos quando um amigo pergunta. “Não sei, as pessoas não perguntam, nunca tive que responder”, refletiu após alguns segundos de pequeno susto, evidenciado por sua expressão. “As pessoas estão tão preocupadas com elas mesmas, preocupadas e ocupadas em falar, que se esqueceram de perguntar e ouvir”, disse em tom triste de constatação daquilo que já sabia.

Não pude discordar. De fato, estava mesmo pensando o quanto eu e muitas pessoas que conheço precisamos melhorar a habilidade de ouvir genuinamente. Na ditadura do “expressar sua opinião”, deixamos de ouvir, entender e apreciar a visão do outro. Percebo isso em muitas reuniões de trabalho ou com amigos: as pessoas estão tão ansiosas por falar, por conseguir o seu espaço, que deixam de prestar atenção no que o outro está falando. Assim, perdemos a oportunidade de nos aprofundar mais e aprender com as visões diferentes ou até mesmo iguais. Perdemos muito mais tempo formulando os argumentos de resposta para expressar a nossa opinião do que atenta e abertamente ouvindo as explanações do outro.

“O sábio não é o homem que fornece as verdadeiras respostas; é quem faz as verdadeiras perguntas.” Lévi-Strauss

Veja bem, não estou falando como observadora isenta, pelo contrário! Muitas vezes me percebo interrompendo alguém para falar algo que passou pela minha cabeça, que pode ou não ter alguma relação com a conversa em andamento. Por sinal, um importante ponto a melhorar em meu comportamento. Confesso, já tive fases piores, de ouvir ainda menos. Mas, como dizem os sábios, tomar consciência de suas falhas é o primeiro e mais importante passo. Não sou das piores ouvintes, nem das melhores, ou ainda não na qualidade desejada.

“Gosto de ouvir. Aprendi muita coisa por ouvir cuidadosamente. A maioria das pessoas jamais ouve.” Hemingway

Ouvir é uma arte cada vez mais difícil de encontrar. Incrível, mas tendo a acreditar que existem muitos mais cursos por aí para “falar bem” do que para “ouvir bem”. Certa vez fiz um curso sobre diálogo apreciativo que, em essência, abordava predominantemente a escuta ativa, ou seja, colocar sua atenção e intenção positiva em ouvir. Muitas vezes quando sentimos que alguém está dando verdadeira atenção ao que se diz, nos abrimos mais. Em contrapartida, quando se está aberto genuinamente a ouvir, aprende-se muito, seja sobre aquilo que desconhece, seja os próprios argumentos daquilo que discorda. No entanto, ouvir abre a vulnerabilidade para ser influenciado, e nem sempre é isso que se quer.

Neste ponto, trata-se de ouvir tanto no presencial quanto no virtual. Ouvir para trocar, para aprender, para ensinar, para ser influenciado e influenciar, para criar em conjunto. Apesar do jargão da força da internet e mídias sociais para compartilhar conhecimento, nem sempre é assim. Não adianta a tecnologia se não for alterado o comportamento humano. Já em 2007 durante uma pesquisa sobre blogs me lembro da constatação de que, para muitos, compartilhar era mais sinônimo de “distribuição” do que de troca, poucos responderam a pesquisa ou deram qualquer retorno do meu contato. Recentemente tive a confirmação de que o cenário não mudou tanto assim ao tentar trocar ideias com uma blogueira de viagens (ou pseudo-blogueira) que, infelizmente, não respondeu nenhuma das minhas mensagens. E olha que não foi apenas uma tentativa. Ainda mais via Facebook, não dá para enganar que o email caiu na caixa de spam. Ei, peraí, postar fotinhos e posts para atrair visitas todo mundo quer, mas trocar ideias com alguém, responder mensagens, que não sejam apenas de elogios, não?! É, acho que ouvir e compartilhar não tem o mesmo significado nos dicionários reais de todo mundo…

Se ouvir é abertura para ser influenciado, o que de fato é muito positivo quando acreditamos na verdadeira construção compartilhada, expressar-se é posicionar-se. No entanto, me parece que em nossa sociedade há uma ligeira confusão de que sempre é preciso falar, mostrar que pensa alguma coisa seja lá sobre o que for. Não sei, talvez seja esse um dos motivos daquelas reuniões intermináveis quando muitas vezes as pessoas só falam para concordar com o outro. Perdemos muito tempo apenas concordando, complementando o que o outro já disse. Sempre me lembro da dica do meu ex-chefe, “se for para concordar com o que já foi dito, não precisa dizer de novo”. Claro, a não ser que seja uma reunião por consenso e o processo ainda esteja em apreciação, neste caso talvez ainda seja importante. Hum, mas na maioria das ocasiões, será?!

Está certo, em tempos de verborragia, tem gente que também abusa da capacidade de concentração de um ser humano para exercer a verdadeira virtude de ouvir. Quantas vezes você não se pega exatamente como o Charlie Brown diante de um falatório sem fim que mais parece literalmente blá, blá blá. E aquelas pessoas que gostam de falar difícil justamente para que o outro não te entenda. Lembro-me de uma palestra do Fernando Henrique Cardoso que vi numa das FLIPs (Festa Literária Internacional de Paraty) quando comentou sobre o mal que acomete muitos acadêmicos com seu repertório “academicista”, que fala difícil para parecer inteligente e o entendimento do outro vira um objetivo de segundo plano.

Aí, como diz minha irmã, chega aquele momento que você olha, com aquela cara de pura concentração, mas através da pessoa. “Aham!”, sinal de escuta ativa, mas na verdade nada mais é do que um cacoete para parecer interessado na conversa. Desculpem-me a franqueza. Pior são aquelas situações que alguém faz uma pergunta aberta, do tipo, o que você acha da política ambiental brasileira, e o outro responde aham, claramente sem ter prestado a menor atenção em seu interlocutor. É, ouvir ativamente é uma arte, ainda mais dependendo do seu interlocutor.

A tarefa não é fácil, não é apenas uma mudança de comportamento social, mas a busca por se tornar cada vez mais um ser humano melhor. Nos importarmos mais com o outro, perceber o valor da contribuição do outro, não ter medo de ser influenciado, de mudar de opinião, de pensar junto, de criar junto. Equilibrar ouvir e dizer, compartilhar e influenciar. Afinal, se tem tanta gente falando e tão pouca gente ouvindo, estamos falando pra quê?! Ou melhor, para quem?

Uma vida sem carro em São Paulo

Alternativas e custos de locomoção na maior cidade do País.

andando na rua

No último post, quando comecei a falar sobre uma vida sem carro, foi inevitável desenvolver o questionamento a respeito da política pública de transporte no Brasil. Ainda mais nestas condições, como realmente adotar uma vida sem carro se não há infraestrutura suficiente para tal decisão? De fato, é uma questão de escolha de vida e, sendo uma cidadã da maior cidade do país, também de escolha de qual São Paulo montar para você. Com alguns ajustes, a decisão se torna possível e, mais econômica, na prática.

Claro, depende muito de qual São Paulo você consegue montar para você. Como o sistema de transporte público não é abrangente fica difícil se você estiver muito longe do metrô. Dependendo da vida profissional também, como representante comercial que praticamente visita clientes o dia todo. Ao mesmo tempo, é possível para muitas, e pode ser até mais econômico e saudável.

Apesar do preconceito de muita gente que só usa o carro aqui, mas no exterior bem usa o sistema de transporte público, o serviço em São Paulo é muito bom. O Metrô, apesar de curto, é muito bom. Também, era o mínimo que se esperava! Se não é tão abrangente quanto o de Paris, por exemplo, há de ser mais limpinho e cheiroso pelo menos. A primeira decisão sobre a minha São Paulo é, definitivamente, morar em algum lugar central e de fácil acesso ao Metrô, de longe o melhor meio de transporte da cidade. Ideal mesmo é conseguir montar a vida profissional com a concentração de locais para ir perto de metrô também.

“A rede paulistana tem 74 km de extensão, bem menos do que cidades menores, como Berlim (331 km) e Moscou (313 km), de capitais latino-americanas, como Cidade do México (226 km), e até de locais que fizeram metrô mais tarde, como Seul (563 km) e Xangai (437 km). “Não entendo por que tudo no Brasil tem de demorar tanto. A população precisa cobrar a execução dessas obras o quanto antes”, diz Leandro Gomes Silva e Silva, estudante que mora na Alemanha e enviou a ideia vencedora da categoria Transporte Público”. http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,metro-um-campeao-de-pedidos,988297,0.htm

“Ah, mas e o conforto de estar no seu carro”. Olha, quando eu trabalhava no interior e me dividia na semana entre várias cidades e São Paulo, rodava, em média, 2.500 km por semana de carro. Nem me venha falar de conforto! Dirigir em estrada até que é bem melhor do que ficar horas no trânsito, naquela mesma posição e com o desespero de não ver a paisagem se alterar. Sem contar que, eu até fazia a sobrancelha no carro, mas vamos combinar que não é um tempo lá muito útil. De metrô vai muito mais rápido e é possível ler ou fazer outra coisa. Claro, se você conseguir fugir dos horários de rush melhor. Também não uso linhas muito lotadas todos os dias, o que altera muito a realidade de quem precisa estar no metrô nos horários mais cheios. A Estação Sé às 18h é, decididamente, impraticável! Assim como a Radial Leste. Tem muita gente em São Paulo, isso é um fato!

Mas não é só de Metrô que se locomove em São Paulo. As linhas de ônibus são muito úteis, apesar do preconceito redobrado em relação a elas. No geral, funcionam bem e, em vias com corredor de ônibus, o caminho flui razoavelmente mais rápido do que com carro. A Rebouças, desde sempre rua “proibida” para quem está no volante, mas quer fugir do trânsito, hoje é uma alternativa frequente nos meus percursos.

O principal problema para o uso do ônibus é informação! Não é possível descobrir qual linha você precisa para chegar ao seu destino na rua, apenas pelos sites da SPTrans e EMTU, que também não são lá essas coisas. No entanto, é inegociável saber qual linha tomar antes de sair de casa. O primeiro desafio já é encontrar o ponto de ônibus, muitas vezes só é possível notá-lo pela aglomeração de pessoas em posição de espera olhando para rua. Um quadro sobre quais linhas passam por ali então, raridade encontrada com muita dificuldade somente em alguns pontos de corredores como da Rebouças. Note, nem sempre, raridade mesmo! De qualquer forma, de ônibus ainda dá para chegar a muitos lugares.

Curioso mesmo é no Rio de Janeiro, o ônibus que se chama “Metrô de Superfície”. Desculpe aí, mas não é dar nome de metrô a um ônibus não vai fazer com que ele não fique no trânsito. Além do mais, ônibus é ônibus, metrô é metrô, e monotrilho é outra coisa que eu não sei bem definir (risos).

Na semana passada, quando tive que agendar uma reunião em Alphaville, definitivamente coloquei em cheque a minha decisão. Na hora pensei, “como vou fazer para chegar lá? Será que é agora que vou ter que mudar de ideia?”. Uma breve pesquisa na internet e encontro a linha Paraíso – Alphaville. Não posso reclamar. O ônibus é excelente, com ar condicionado, por apenas R$ 6,85. E pude usar meu tempo para ler e até dormir um pouquinho. Teste realizado, posso continuar sem carro!

Óbvio, não é todo ônibus na Grande São Paulo com ar condicionado e, neste calor, não dá para exagerar na caminhada ou uso do ônibus, a não ser que você queira chegar com a aparência destruída em seus compromissos. Para isso existe o táxi! (risos) Quando não se tem carro, a lógica do custo de locomoção muda. Não é valor de cada corrida que entra numa avaliação específica, mas o valor total no mês e no ano. Para quem não gasta R$ 15 só na primeira hora do estacionamento, dá para usar um táxi aqui outro ali quando precisa.

Eu não sou de regular tanto assim o taxi e, desde novembro, a conta mensal já está compensando os antigos custos do carro. Claro, sempre vale a análise crítica se não há alternativas de metrô ou ônibus antes de sair pegando o primeiro táxi que aparecer. Mas, quantas vezes só nesse mês, já não fui para a Berrini de táxi para chegar bem na reunião e voltei de trem e metrô? Sempre com o mesmo tempo equivalente no percurso. Sem contar que o táxi, na maioria dos casos, vai mais rápido do que seu carro pessoal graças, novamente, aos corredores de ônibus, como na Rebouças.

Fica mais caro ou mais barato não ter carro?

Nas minhas contas, e no meu estilo de vida, fica mais barato. E acredito que para muitas pessoas também, basta colocar a conta na ponta do lápis. Se você ainda gostar de conforto e quiser um carro mais caro, pode ser que compense ainda mais usando predominantemente o táxi.

Vamos lá fazer algumas contas de papel de pão e simular um pouquinho os gastos!

Para comprar um carro simples, porém confortável, custa mais ou menos R$ 30.000. Mas, ao sair da concessionária, diz-se na boca pequena, desvaloriza 20%. Ou seja, perde-se R$ 6.000. Sem contar a cada mês o quanto desvaloriza. Se você pegar esses mesmo R$ 30.000 e colocar numa aplicação, supondo com rendimento de 0,5% ao mês, você ganha R$ 150 por mês, R$ 1.800 ao ano.

Para sustentar o carro, vai IPVA (supondo R$ 1500), Seguro (mais R$ 1500), gasolina (Sei lá, R$ 200/mês; R$ 2400/ano) e estacionamento (xiii, com os preços em São Paulo fica até difícil e depressivo estimar o valor). Já se foram, sem contar manutenção e eventuais sinistros, multas e afins, R$ 5.400/ano. Enquanto isso, a sua vaga na garagem do prédio pode valer R$ 150 até R$ 300.

Ou seja, enquanto o carro representa um gasto de mais de R$ 11.000 ao ano, ao não ter o carro, você pode ganhar mais de R$ 4.000. Hum, será que com R$ 1.000 ao mês não dá para pegar metrô, ônibus e muitos táxis?! Com a importante Lei Seca (não dá para reclamar da lei, né?! É segurança e vida!), nem sempre dá para sair de carro, ou seja, alguns táxis você já teria que chamar…

“E as coisas que dá para fazer só de carro?!”, ouço frequentemente a pergunta. “Hum, tipo o quê?”, já virou a pergunta-resposta padrão. “Mercado!”. Ir ao mercado já não é das atividades mais agradáveis quando precisa comprar muitas coisas. Ok, eu adoro ir ao mercado para decidir um jantarzinho, mas para comprar produtos de limpeza deixa de ser diversão. Eu compro pela internet, e super recomendo! De R$ 11 a R$ 14 de taxa de entrega para compras via internet, ou serviço grátis de entrega quando a compra foi feita no mercado no valor mínimo de R$ 60, compensa o tempo de ir, estacionar, voltar e descarregar o carro. Farmácia, restaurante, compras, delivery existe de montão! Para todas as outras situações, existe táxi, plagiando a propaganda de cartão de crédito, que viabiliza muitas das entregas.

Para finalizar a defesa da vida sem carro, valem argumentos também em relação ao meio ambiente, afinal é um carro a menos na rua. Além de um exercício aqui outro ali com a caminhada. Ao andar mais pelas ruas da cidade, você também vê e conhece melhor o local onde vive. Difícil ver um café acolhedor, uma vitrine charmosa ou um restaurante novo, caminhando nas ruas é possível presenciar mais a cidade. Experimente uma caminhada pelo seu bairro, você pode se surpreender com coisas bacanas que nem sabia que estava ali, tão perto!

 

E o que transporte público e toda essa discussão tem a ver com o blog?

Sorte que o blog pode ser um espaço de expressão, né? Além de pensar no cotidiano de uma vida sem carro, tem alguma coisa muito errada nesta lógica de escolhas de investimentos, cortes de impostos e pretensos estímulos à economia nacional, como escrevi no post anterior. Sou uma cidadã paulistana e brasileira que escolheu o transporte público como alternativa de vida para não perder horas inúteis no transito e dinheiro mal aplicado em um bem que de fato é só mais um grande gasto. E quero ver esse país melhorar. Será que então não vale questionarmos e refletirmos mais?

E você, como você consegue montar a sua São Paulo? E na sua cidade, como você vê os meios de transporte e a possibilidade de uma vida sem carro?

Aqui ou algum lugar, mas também para fazer AQUI melhor.

O sonho do carro novo e o transporte público. Desenvolvimento?

Vale questionar essa série de verdades absolutas e costumes enraizados a respeito da real adequação ao cenário social e econômico.

transito em são paulo

“Consegui comprar meu carrinho”, talvez seja um dos principais sonhos do brasileiro. Muitas vezes a frase é dita em tom de conquista, afinal, somos bombardeados desde criança pela escolha do carro como principal meio de transporte nas cidades brasileiras. É cultural! Somos criados para querer um carro. Mas será que esse sonho é tão importante assim? E mais, tão benéfico assim para você e para a sociedade?

Depois de uma temporada na Europa, voltei decidida para São Paulo: não terei carro! Sou uma “car free”, apesar da reação incrédula da maioria das pessoas e seus olhares que denunciam a dúvida e pré-julgamento de que eu estaria mais para uma “money free” segundo a lógica preponderante por aqui. Acredito que, para a maioria das pessoas, seja inimaginável esta escolha não ser realizada por necessidade, mas sim por uma nova opção e filosofia de vida. Esta reação é absolutamente compreensível! Somos criados para querer um carro! Além do conforto, a política pública de infraestrutura de transporte neste país é baseada no automóvel próprio, mesmo que, em termos coletivos, os benefícios do transporte público de qualidade seja infinitamente maior do que o carro individual e pessoal. Basta observar a quase infinita fila de carros com uma pessoa só no trânsito em São Paulo na hora do rush.

O país só perde com isso, e cada cidadão também. De uma história de sucateamento das ferrovias brasileiras, passamos de governo em governo fazendo pouco, muito pouco, para a melhoria dos sistemas de transporte públicos municipais, estaduais e federais. No último feriado da Independência em setembro ainda estava viajando pela Europa. Sério, eu mudei de país, da Inglaterra para a França em apenas duas horas em viagem de trem, enquanto lia as mensagens de amigos e conhecidos sobre o habitual e angustiante trânsito nas estradas paulistas de mais de cinco horas para um percurso de menos de uma hora.

“Ah! Mas não dá para comparar a realidade europeia desenvolvida com o Brasil”. Por que não? O metrô de Londres tem 100 anos e o de São Paulo quase 40 anos. No entanto, independente do tempo de operação, estamos numa era em que a tecnologia está disponível. E o dinheiro também deveria estar, afinal, contribuímos imensamente com impostos que deveriam servir para alguma coisa. Dá para medir a riqueza de um país se os ricos usam o transporte público. Sinal de que não há tanta desigualdade e muitas alternativas viáveis de locomoção.  Em praticamente toda Europa é possível se locomover apenas com trem e transporte público.

Falando em impostos, ao invés de investir em infraestrutura básica e sistema de transporte de qualidade, a medida frequente do governo brasileiro é a redução do IPI para que o cidadão compre seu carro, sem avaliar o cenário macro, e ficar mais tempo parado no trânsito. Mais um estímulo ao sonho do meu carrinho, porém pouco incentivo ao pensamento crítico e questionador.

Alguém já parou para pensar o quanto o país perde de dinheiro e produtividade com as pessoas paradas uma, duas, três horas no trânsito? A alternativa automática é aproveitar o IPI reduzido, afinal sinaliza o aumento do poder aquisitivo no brasileiro. Será? Aumenta também a necessidade em gastar mais para sustentar o carro e todos os custos relacionados a ele (IPVA, Seguro, gasolina, estacionamento, manutenção), além da estúpida depreciação, agravada com a redução do IPI. Qual a vantagem de comprar um carro usado se o zero custa “tão pouco”? Vendi meu carro no ano passado justo nessa época e a desvalorização tira a vontade de sorrir.

Sem contar que a redução de imposto pode ser considerada razoavelmente ilusória. Apesar de não ganhar com o IPI, o governo, independente de qual esfera, passa a arrecadar mais com IPVA, Seguro Obrigatório, impostos sobre as operações de venda. “Hum, mas a medida é para fazer a economia girar”… Em minha opinião, o argumento cai por água abaixo quando pensamos na produção agrícola ou industrial no interior do país que sofre com um valor de frete exorbitante por conta da falta de infraestrutura adequada. Ou até mesmo a produtividade e, porque não, a capacidade de consumo de milhões de pessoas que estão lá paradas no trânsito, porém na falsa sensação de conforto e conquista do seu carro em relação ao transporte público.

“Quanto à arrecadação, de junho a agosto, o governo deixou de arrecadar cerca de R$ 20,7 milhões com a redução do IPI. Entretanto, no mesmo período, a arrecadação com PIS COFINS, Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) aumentou R$ 22,4 milhões. Bellini disse ainda que a geração diária de impostos aumentou em R$ 1,7 milhão, apesar da redução do IPI”. Matéria no Globo.com

Não foi apenas em 2012 que o IPI foi reduzido para a compra de automóveis, sem mencionar eletrodomésticos também. Desde 2009 o governo vem adotando essa medida a partir do discurso de incentivo da economia. Segundo dados publicados pela Associação Brasileira de Locadora de Carros (ABLA) e matéria no UOL, no total, o país deixou de arrecadar 76 bilhões de reais. Ignorando o aumento da arrecadação dos outros impostos, com uma conta rápida nota-se que esse valor seria suficiente para construir equivalente a 20 linhas amarelas do Metrô de São Paulo, segundo dados publicados no site do próprio governo do estado, ou seja, em conta no papel de pão, mais de 250 km do sistema metroviário de qualidade.

“O custo da Linha 4-Amarela do Metrô, na primeira fase, é de R$ 3,8 bilhões (incluindo a parcela de US$ 450 milhões da ViaQuatro, referente à compra de 14 trens mais sistemas operacionais)”. Site do Governo de SP.

Só que não vejo esse tipo de questionamento sendo amplamente repetido. Me parece que, ao comprar o carro, fechamos a sensibilidade para olhar o quadro mais amplo sobre a insustentabilidade deste meio de transporte. Como diz minha amiga Deusa, dessa forma, a classe média vai deixando de usar os serviços básicos, como o de transporte e, assim, a sociedade vai perdendo a cobrança da principal massa crítica “cliente” desses serviços. O mesmo acontece com a saúde, porque passamos a usar o plano particular ou empresarial de assistência médica. Também com educação, ao colocar seus filhos nas escolas particulares, e assim por diante. Está errado? Difícil julgar, porque sempre se quer o melhor para si e para a família. Mas quando vamos mesmo cobrar a melhoria desses serviços?!

Enquanto você estiver no trânsito, avalie esta situação sob o ponto de vista financeiro, social, público e ambiental, abre-se espaço para bons questionamentos.

O texto já ficou longo demais! Avaliar se dá mesmo para viver sem carro em Sampa, terá que ficar para o próximo post. Até lá, bom trânsito para você!

 

Referências:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2012/08/montadoras-pedem-mantega-prorrogacao-do-ipi-reduzido.html

http://www.abla.com.br/governo-perdeu-r-76-bi-com-queda-do-ipi-de-autos/

http://americaeconomiabrasil.uol.com.br/artigo/edicao-417/debates/lucro-dentro-fora-de-campo

http://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/lenoticia.php?id=214771

“O meu cantinho”, verdade ou sensação

Copenhagen, Dinamarca

Copenhagen, Dinamarca

“Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais”

Elis Regina

Dos limites do corpo e nada mais “Mas você vai viajar com a mochila nas costas, sem uma base, por meses?”, indagou minha amiga Silvana meio em tom de constatação e surpresa quando contei, há um ano, a minha decisão pelo sabático. “Eu não aguentaria, preciso da sensação do meu cantinho, não sei explicar, aquela sensação de conforto de chegar em casa”.

Enquanto estava viajando este comentário ficou muito distante na minha realidade, a sensação de liberdade por ter poucas coisas e viver com o que cabe numa mochila era bastante gratificante ao mesmo tempo em que era desafiador. Mesmo assim, começou a ficar evidente meu gosto pelo aconchego, ainda que ilusório, aparente, terceirizado, presente nas minhas escolhas de hospedagens e até albergues com mais cara de “casa”.

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Fachada de casa em Lisboa, Portugal

Casa! O que é casa? Uma alternativa de definição é onde estamos, onde dormimos, para onde voltamos. Hum… sei lá. Seria difícil definir casa pelo lugar que dormimos cotidianamente. Quem já viajou a trabalho, participou de projetos longos em outras cidades ou, como eu, morou dois meses em hotel, consegue definir aquele local como “minha casa”. Não que seja ruim, em muitas carreiras há de se adaptar a esta vida de muitas viagens e noites dormidas em hotéis ou flats. De qualquer forma, não dá para chamar de “casa”, mesmo que faça este papel por um período.

Um quarto padrão, com móveis modernos, mas padrão; decoração bacana, mas padrão; cama confortável, mas padrão; cheiro agradável, mas padrão; restaurante e serviço 24 horas, mas padrão. Sim, estou falando de um hotel no mínimo razoável, sei que há situações que é padrão, mas no baixo nível. De qualquer maneira, não é casa. Não tem a sua cara, você cansa do cardápio, enjoa do cheiro sempre igual de hotel, até se irrita por sua bagunça não ficar do mesmo jeito por um dia que seja.

Lembro-me quando uma grande amiga foi morar em um flat após a separação e eu insistia em dizer para ela que era muito bacana encontrar logo uma casa (gente, apartamento também é casa nestes casos, ok?!), mesmo que temporária. Assim, poderia dar a sua cara e sentir o aconchego de voltar para o “seu pedacinho” depois de um dia de trabalho. Afinal, já é mudança demais, ainda ficar no ambiente impessoal de um flat, mesmo que você sempre possa falar com alguém diferente no restaurante durante o jantar.

Casa da Ninna, estilosa como ela!

Casa da Ninna, estilosa como ela!

Casa é pessoal! Casa tem decoração única, independente do estilo, mas é aquele que você escolheu. Casa tem cheiro gostoso de comida feita na hora, de limpeza com produtos normais (não o típico cheiro de hotel), tem sapato na sala, tem pia cheia de itens pessoais (realmente uma das coisas que mais senti falta), tem louça quebrada, tem comida na geladeira. E a delícia de escolher a decoração?! Em casal então a tarefa é mais difícil, e também mais interessante, pois cada um gosta de uma coisa e assim vai montando um estilo combinado e novo.

Ah! Depois de voltar para São Paulo e resolver retomar novos projetos* a frase da Silvana mudou de significado, afinal, agora tem outra ressonância na minha vida. Sim, agora é importante ter o meu cantinho. Foi engraçado ao voltar como as pessoas se acostumam em te ver e te tratar como se estivesse eternamente neste estado de impermanência e transição. Apesar de ser ultra mega bem recebida na casa da amiga que me acolheu, não era o meu cantinho, meu ponto de apoio, a minha casa.

Há pouco mais de um mês estou de casa nova e, como sempre acredito, na casa que deveria estar. A vida move suas peças e, após aquela longa negociação (porque algumas vezes o corretor de imóveis pode atrapalhar o processo mais do que ajudar, né?), volto para a região de São Paulo que adoro. Agora, estou naquela fase gostosa de dar a sua cara àquele lugar! Pintar uma parede, colocar um quadro, comprar um móvel, pensar na cortina, colocar protetor nos batentes, dispor fotos, e assim vai. Cuidar das coisas grandes e dos detalhes! Ganhar o abajur antigo dos pais com aquele gostinho de preciosidade da família, pensar no móvel perfeito para o lugar, construir o espaço do Home Office para viabilizar os novos projetos.

E assim, vamos transformando esta casa em um lar! Porque cara de casa até dá para enganar, mas sentimento de lar, de ponto de apoio, de aconchego, de ‘seu pedacinho”, hum, aí só mesmo colocando a sua energia e o seu estilo.

Me sinto em casa em vários lugares do mundo, mas sempre tem aquele pedacinho que é o seu lar. Algum lugar e aqui.

“O lar é onde o coração do homem cria raízes.” Henrik Ibsen

foto (1)

* Oi? Retomar novos projetos?! Sim, contraditório assim, mas para mim faz sentido. Continuar a construção de uma nova vida não é um projeto só, e, se já comecei, também não é mais novo… hum, acho que dá para falar um dia só disso!

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De qual Europa estamos falando?

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Quando um brasileiro, sem nacionalidade europeia, começa a planejar uma viagem para o velho continente, sempre aparecem (ou pelo menos deveriam aparecer) questões sobre imigração, fronteiras e moeda. Em meu planejamento de viagem talvez essas questões tenham se tornado importantes direcionadores para escolha de rotas e países. Até mesmo porque, falando de Europa, na verdade, é importante perguntar exatamente de qual Europa se trata: continente? Ou comunidade econômica? Ou acordo de fronteiras? Ou zona do euro? Só para ficar mais confuso, essas Europas não são exatamente as mesmas.

Isso realmente não é tão claro para todo mundo. Por exemplo, na viagem de trem de Praga para Viena estava no mesmo vagão com um grupo de americanos. Um deles reclamava da aparente desordem, afinal, na sua visão, estavam mudando de país, da República Tcheca para Áustria, sem qualquer controle de passaporte. “Os dois países fazem parte do mesmo acordo de fronteiras na Europa”, tentei explicar, mas o americano (um pouco arrogante, devo confessar) não quis me dar ouvidos. “Não, a República Tcheca não está na Comunidade Europeia, até a moeda é diferente”, me respondeu. “Acontece que o acordo de fronteiras não é o mesmo da comunidade econômica, nem mesmo a moeda é a mesma em todos os países da comunidade”, tentei novamente explicar. “Por exemplo a Dinamarca, presidência da União Europeia em 2012, tem outra moeda e não o Euro, assim como a República Tcheca”, ressaltei, mas recebi um olhar pouco convincente do americano reticente. “Boca de falar para quem tem ouvidos de ouvir”, desisti da explicação, mas tive a percepção de confusão sobre o tema reforçada.

Não foi apenas essa cena. Muitas vezes tive que explicar porque, com muito pesar, não inclui países como Itália na viagem. “Não dava tempo, pelos 90 dias que podia ficar no Espaço de Shengen (acordo de fronteiras)”. Ou porque tive que emitir um novo passaporte na Inglaterra para voltar para França, afinal pelo mesmo tratado para entrar em um país é necessário apresentar um passaporte com o mínimo de seis meses de validade.

Mas, afinal, quais são todas essas “Europas”?

Europa Continente: Vamos começar pelo mais básico, né? Como está no dicionário o continente é “cada uma das maiores extensões ininterruptas da superfície sólida do globo terreste limitada por um ou mais oceanos”. Europa, o velho continente, o berço da civilização ocidental tal como a conhecemos. Engraçado, mas muitas vezes quando falamos “Europa” pensamos apenas em uma parte dela, a ocidental. No entanto, como continente, inclui a Rússia e a Turquia, por exemplo, muito diferente da percepção política ou econômica. Em Istambul, na Turquia, um dos charmes é justamente ver a junção dos continentes europeu e asiático, além de entender mesmo o conceito de velho mundo ao conhecer o riquíssimo acervo histórico das civilizações mais antigas da humanidade. Em termos turísticos, o leste europeu também cada vez mais desperta interesse. Enfim, o continente europeu como um dos principais destinos de viagem no mundo.

Europa

Europa fronteira – Acordo de Schengen: Uma das frases que mais explica isso, porém muitas vezes de maneira errônea é “uma vez na Europa você pode se movimentar para todos os países”. Sim, parcialmente verdade, porque você pode se movimentar dentro dos países que assinaram o Tratado de Schengen.

“Ah, esse tratado só diz que você precisa da assistência médica para passar pela imigração” normalmente é a resposta para definir tal tratado. Sim, o seguro entre todas as outras exigências de imigração. Fazendo uma rápida pesquisa na internet dá para entender porque as pessoas acreditam que seja só o seguro, uma vez que empresas que vendem seguro viagem, as primeiras no resultado de busca no Google, explicam isso de maneira super simplista, ressaltando o seu produto de venda, mas também espalhando a desinformação (sério, custava explicar direito?!).

Mas afinal então o que é o Tratado de Schengen? “O Acordo de Schengen é uma convenção entre países europeus sobre uma política de abertura das fronteiras e livre circulação de pessoas entre os países signatários”, como está no Wikipedia (fonte não oficial mais completa de informações sobre tudo). A circulação dentro dos países que aderiram o tratado de Schengen é livre, ou seja, uma vez dentro desta área é possível circular entre os países como se fossem viagens domésticas, sem precisar apresentar o passaporte no controle de imigração.

Só não confunda, não são os mesmos países da União Europeia e do Tratado de Schengen, são acordos diferentes no mesmo continente. Por exemplo, o Reino Unido e a Irlanda estão na União Europeia, mas não no Tratado de Schengen. Por sinal, as duas nações estão em outro acordo de fronteiras. Já Suíça, Islândia e Noruega estão no acordo de fronteiras Schengen, mas não fazem parte da União Europeia. Na prática: por exemplo, você terá que passar pela imigração da França para o Reino Unido, por exemplo, mas pode solicitar o Tax Free das compras nos dois países na última saída do país.

Fazem parte do Tratado de Schengen: Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha,  Estônia,  Finlândia, França, Grécia, Hungria, Islândia, Itália, Letônia, Liechtenstein, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Noruega, Holanda (Países Baixos), Polônia, Portugal, República Checa, Suécia e Suíça (Fonte: http://europa.eu). Dica: se for viajar, ainda assim cheque se não houve mudança nessa lista! E veja as regras do país de entrada na área de Schengen, onde será feita a imigração, pois a exigência de comprovação financeira de renda para o período da estadia. A Espanha, por exemplo, exige um valor mais alto do que a França e Portugal.

União Europeia: É uma união econômica e política que passou a ter esse nome em 1993. É a evolução da Comunidade Econômica Europeia (CEE) em 1958, então com foco na cooperação econômica, mas hoje representa “uma organização ativa em todos os domínios, desde a ajuda ao desenvolvimento até à política ambiental” (Fonte: http://europa.eu).

Bandeira UE 2São Estados-Membros da União Europeia: Alemanha (1952), Áustria (1995), Bélgica (1952), Bulgária (2007), Chipre (2004), Dinamarca (1973), Eslováquia (2004), Eslovênia (2004), Espanha (1986), Estônia (2004), Finlândia (1995), França (1952), Grécia (1981), Hungria (2004), Irlanda (1973), Itália (1952), Letônia (2004), Lituânia (2004), Luxemburgo (1952), Malta (2004), Países Baixos (1952), Polônia (2004), Portugal (1986), Reino Unido (1973), República Checa (2004), Romênia (2007), Suécia (1995). A Croácia está em fase de adesão. São países candidatos: antiga República iugoslava da Macedônia, Islândia, Montenegro, Sérvia e Turquia. (Fonte: http://europa.eu).

Zona do Euro: Estar na União Europeia não quer dizer que o país adotou o Euro como moeda oficial. Este é o caso da Dinamarca e do Reino Unido, que optaram por não adotar a moeda única. E nem todo território que usa o Euro está na União Europeia, muito menos no mesmo acordo de fronteiras.

euro17 Estados-Membros da União Europeia usam o Euro (€) como moeda: Alemanha, Bélgica, Estônia, Irlanda, Grécia, Espanha, França, Itália, Chipre, Luxemburgo, Malta, Holanda, Áustria, Portugal, Eslovênia, Eslováquia, Finlândia. Já Bulgária, República Checa, Dinamarca, Letônia, Lituânia, Hungria, Polônia, Romênia, Suécia e Reino Unido são membros da UE, mas ainda não adotam a moeda única. (Fonte: http://www.ecb.europa.eu). Não bastasse, alguns Estados e Territórios fora da EU também utilizam o Euro, como a Cidade do Vaticano e Mônaco.

Por tudo isso que é fundamental pesquisar qual Europa você vai visitar (risos). Veja, se você for da Alemanha para a Dinamarca, por exemplo, não passará pela imigração, pois os países fazem parte do Tratado de Schengen. Mas você deve trocar a moeda, pois, apesar de estar na União Europeia, o país usa a moeda Coroa Dinamarquesa. Já para entrar na Irlanda você passará pela imigração, mas continuará usando o Euro. Na Inglaterra você muda de moeda e de carimbo no passaporte. Da Áustria para República Tcheca não haverá controle imigratório, mas você deixará de usar o Euro, pelo menos até 2015, quando é a previsão de que a moeda seja implantada no país. Até lá os preços estão em coroa checa. E assim por diante.

travelVai viajar? Dicas:

Faça a lista dos países que pretendem visitar e confirme no site do consulado do país cada uma das informações.

  • Imigração, fronteira e circulação: Verifique se o país faz parte ou não no Tratado de Schengen (busque sempre listas atualizadas, pois pode ter atualizações, ingresso de novas nações, etc.). Se sim, as regras de Schengen se aplicam. Se não, verifique se há algo diferente e, principalmente, se você não precisa de visto antes de ir ao país. O Brasil aplica a regra de reciprocidade, exige visto de quem nos exige visto. Mas também já fez muitos acordos de imigração por aí (por exemplo, a gente não precisa de visto para Turquia e Rússia). Sempre é importante ter toda a documentação exigida para evitar surpresas ao chegar ao seu destino.

Em linhas gerais as exigências de imigração para uma viagem de turismo em algum país europeu pertencente ao Tratado de Schengen são:

  • Seguro saúde com cobertura em 30 mil euros (é só pedir na seguradora o seguro que atenda as especificações de Schengen, fácil)
  • Comprovante de estadia. Sempre é mais fácil se for uma reserva de albergue, hotel ou até o airbnb (veja Tipo de Hospedagem). Agora se for casa de amigo ou parente, ou até couchsurfing, fica mais difícil, pois precisa ser uma carta e cada país tem suas especificidades sobre a carta. Sempre consulte o site do consulado do país de chegada
  • Comprovante de recursos financeiros suficientes para sustentar sua viagem. De novo, cada país tem sua quantia. A Espanha, uma das principais portas de entrada na Europa, exige o equivalente a 64,14€ por dia de permanência por pessoa, com um mínimo equivalente a 577,26€ por pessoa. Valem como comprovante de recursos dinheiro ou cartão de viagem no estilo Visa MoneyTravel ou Amex Global Travel. Normalmente as pessoas imprimem o extrato online, mas já li na internet que às vezes podem encrencar com isso. As centrais de atendimento ao cliente dos cartões podem emitir a carta alfandegária com o saldo do cartão e enviar para seu email, mas o prazo de solicitação é 72 horas antes da data de viagem.
  • Documentação válida, passaporte válido para o período da viagem, e normalmente há a exigência de no mínimo de seis meses de validade. Também deve apresentar passagem de saída do Espaço de Schengen dentro dos 90 dias permitidos.

Vale lembrar que não brasileiros não precisam de visto prévio para visitar países do Tratado de Schengen por um prazo máximo de 90 dias a cada 6 meses para fins de turismo ou visita, sem qualquer atividade remunerada. Eu não tive qualquer problema com imigração, sempre foi muito rápido, mas eu também sempre tinha toda a documentação exigida e um pouco mais. Afinal, acredito muito na Lei de Murphy, melhor não arriscar! ;-)

  • Moeda: Antes de tudo, faça seu orçamento de viagem em Euro. Assim, quando estiver em algum país você facilmente poderá controlar seus gastos fazendo a conversão para Euro. Nestes países todo mundo faz a conversão rapidamente e é fácil descobri-la, muito mais do que para o Real. E, vamos combinar, viajando ninguém quer ficar um tempão fazendo contas. Sempre chegue no país também com um pouco de moeda local. As taxas para trocar a moeda em aeroportos e estações de trem tendem a ser mais altas sempre. Mas não precisa sair do Brasil com todas as moedas, ainda mais se o período de viagem for longo como o meu, sempre tem casas de câmbio para fazer a transação. Os cartões de viagem da Visa e Amex também sacam dinheiro na moeda local, com conversão automática do dia. Podem facilitar! ;-)

É isso aí! Boa viagem!

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