
Quando um brasileiro, sem nacionalidade europeia, começa a planejar uma viagem para o velho continente, sempre aparecem (ou pelo menos deveriam aparecer) questões sobre imigração, fronteiras e moeda. Em meu planejamento de viagem talvez essas questões tenham se tornado importantes direcionadores para escolha de rotas e países. Até mesmo porque, falando de Europa, na verdade, é importante perguntar exatamente de qual Europa se trata: continente? Ou comunidade econômica? Ou acordo de fronteiras? Ou zona do euro? Só para ficar mais confuso, essas Europas não são exatamente as mesmas.
Isso realmente não é tão claro para todo mundo. Por exemplo, na viagem de trem de Praga para Viena estava no mesmo vagão com um grupo de americanos. Um deles reclamava da aparente desordem, afinal, na sua visão, estavam mudando de país, da República Tcheca para Áustria, sem qualquer controle de passaporte. “Os dois países fazem parte do mesmo acordo de fronteiras na Europa”, tentei explicar, mas o americano (um pouco arrogante, devo confessar) não quis me dar ouvidos. “Não, a República Tcheca não está na Comunidade Europeia, até a moeda é diferente”, me respondeu. “Acontece que o acordo de fronteiras não é o mesmo da comunidade econômica, nem mesmo a moeda é a mesma em todos os países da comunidade”, tentei novamente explicar. “Por exemplo a Dinamarca, presidência da União Europeia em 2012, tem outra moeda e não o Euro, assim como a República Tcheca”, ressaltei, mas recebi um olhar pouco convincente do americano reticente. “Boca de falar para quem tem ouvidos de ouvir”, desisti da explicação, mas tive a percepção de confusão sobre o tema reforçada.
Não foi apenas essa cena. Muitas vezes tive que explicar porque, com muito pesar, não inclui países como Itália na viagem. “Não dava tempo, pelos 90 dias que podia ficar no Espaço de Shengen (acordo de fronteiras)”. Ou porque tive que emitir um novo passaporte na Inglaterra para voltar para França, afinal pelo mesmo tratado para entrar em um país é necessário apresentar um passaporte com o mínimo de seis meses de validade.
Mas, afinal, quais são todas essas “Europas”?
Europa Continente: Vamos começar pelo mais básico, né? Como está no dicionário o continente é “cada uma das maiores extensões ininterruptas da superfície sólida do globo terreste limitada por um ou mais oceanos”. Europa, o velho continente, o berço da civilização ocidental tal como a conhecemos. Engraçado, mas muitas vezes quando falamos “Europa” pensamos apenas em uma parte dela, a ocidental. No entanto, como continente, inclui a Rússia e a Turquia, por exemplo, muito diferente da percepção política ou econômica. Em Istambul, na Turquia, um dos charmes é justamente ver a junção dos continentes europeu e asiático, além de entender mesmo o conceito de velho mundo ao conhecer o riquíssimo acervo histórico das civilizações mais antigas da humanidade. Em termos turísticos, o leste europeu também cada vez mais desperta interesse. Enfim, o continente europeu como um dos principais destinos de viagem no mundo.

Europa fronteira – Acordo de Schengen: Uma das frases que mais explica isso, porém muitas vezes de maneira errônea é “uma vez na Europa você pode se movimentar para todos os países”. Sim, parcialmente verdade, porque você pode se movimentar dentro dos países que assinaram o Tratado de Schengen.
“Ah, esse tratado só diz que você precisa da assistência médica para passar pela imigração” normalmente é a resposta para definir tal tratado. Sim, o seguro entre todas as outras exigências de imigração. Fazendo uma rápida pesquisa na internet dá para entender porque as pessoas acreditam que seja só o seguro, uma vez que empresas que vendem seguro viagem, as primeiras no resultado de busca no Google, explicam isso de maneira super simplista, ressaltando o seu produto de venda, mas também espalhando a desinformação (sério, custava explicar direito?!).
Mas afinal então o que é o Tratado de Schengen? “O Acordo de Schengen é uma convenção entre países europeus sobre uma política de abertura das fronteiras e livre circulação de pessoas entre os países signatários”, como está no Wikipedia (fonte não oficial mais completa de informações sobre tudo). A circulação dentro dos países que aderiram o tratado de Schengen é livre, ou seja, uma vez dentro desta área é possível circular entre os países como se fossem viagens domésticas, sem precisar apresentar o passaporte no controle de imigração.
Só não confunda, não são os mesmos países da União Europeia e do Tratado de Schengen, são acordos diferentes no mesmo continente. Por exemplo, o Reino Unido e a Irlanda estão na União Europeia, mas não no Tratado de Schengen. Por sinal, as duas nações estão em outro acordo de fronteiras. Já Suíça, Islândia e Noruega estão no acordo de fronteiras Schengen, mas não fazem parte da União Europeia. Na prática: por exemplo, você terá que passar pela imigração da França para o Reino Unido, por exemplo, mas pode solicitar o Tax Free das compras nos dois países na última saída do país.
Fazem parte do Tratado de Schengen: Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Islândia, Itália, Letônia, Liechtenstein, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Noruega, Holanda (Países Baixos), Polônia, Portugal, República Checa, Suécia e Suíça (Fonte: http://europa.eu). Dica: se for viajar, ainda assim cheque se não houve mudança nessa lista! E veja as regras do país de entrada na área de Schengen, onde será feita a imigração, pois a exigência de comprovação financeira de renda para o período da estadia. A Espanha, por exemplo, exige um valor mais alto do que a França e Portugal.
União Europeia: É uma união econômica e política que passou a ter esse nome em 1993. É a evolução da Comunidade Econômica Europeia (CEE) em 1958, então com foco na cooperação econômica, mas hoje representa “uma organização ativa em todos os domínios, desde a ajuda ao desenvolvimento até à política ambiental” (Fonte: http://europa.eu).
São Estados-Membros da União Europeia: Alemanha (1952), Áustria (1995), Bélgica (1952), Bulgária (2007), Chipre (2004), Dinamarca (1973), Eslováquia (2004), Eslovênia (2004), Espanha (1986), Estônia (2004), Finlândia (1995), França (1952), Grécia (1981), Hungria (2004), Irlanda (1973), Itália (1952), Letônia (2004), Lituânia (2004), Luxemburgo (1952), Malta (2004), Países Baixos (1952), Polônia (2004), Portugal (1986), Reino Unido (1973), República Checa (2004), Romênia (2007), Suécia (1995). A Croácia está em fase de adesão. São países candidatos: antiga República iugoslava da Macedônia, Islândia, Montenegro, Sérvia e Turquia. (Fonte: http://europa.eu).
Zona do Euro: Estar na União Europeia não quer dizer que o país adotou o Euro como moeda oficial. Este é o caso da Dinamarca e do Reino Unido, que optaram por não adotar a moeda única. E nem todo território que usa o Euro está na União Europeia, muito menos no mesmo acordo de fronteiras.
17 Estados-Membros da União Europeia usam o Euro (€) como moeda: Alemanha, Bélgica, Estônia, Irlanda, Grécia, Espanha, França, Itália, Chipre, Luxemburgo, Malta, Holanda, Áustria, Portugal, Eslovênia, Eslováquia, Finlândia. Já Bulgária, República Checa, Dinamarca, Letônia, Lituânia, Hungria, Polônia, Romênia, Suécia e Reino Unido são membros da UE, mas ainda não adotam a moeda única. (Fonte: http://www.ecb.europa.eu). Não bastasse, alguns Estados e Territórios fora da EU também utilizam o Euro, como a Cidade do Vaticano e Mônaco.
Por tudo isso que é fundamental pesquisar qual Europa você vai visitar (risos). Veja, se você for da Alemanha para a Dinamarca, por exemplo, não passará pela imigração, pois os países fazem parte do Tratado de Schengen. Mas você deve trocar a moeda, pois, apesar de estar na União Europeia, o país usa a moeda Coroa Dinamarquesa. Já para entrar na Irlanda você passará pela imigração, mas continuará usando o Euro. Na Inglaterra você muda de moeda e de carimbo no passaporte. Da Áustria para República Tcheca não haverá controle imigratório, mas você deixará de usar o Euro, pelo menos até 2015, quando é a previsão de que a moeda seja implantada no país. Até lá os preços estão em coroa checa. E assim por diante.
Vai viajar? Dicas:
Faça a lista dos países que pretendem visitar e confirme no site do consulado do país cada uma das informações.
- Imigração, fronteira e circulação: Verifique se o país faz parte ou não no Tratado de Schengen (busque sempre listas atualizadas, pois pode ter atualizações, ingresso de novas nações, etc.). Se sim, as regras de Schengen se aplicam. Se não, verifique se há algo diferente e, principalmente, se você não precisa de visto antes de ir ao país. O Brasil aplica a regra de reciprocidade, exige visto de quem nos exige visto. Mas também já fez muitos acordos de imigração por aí (por exemplo, a gente não precisa de visto para Turquia e Rússia). Sempre é importante ter toda a documentação exigida para evitar surpresas ao chegar ao seu destino.
Em linhas gerais as exigências de imigração para uma viagem de turismo em algum país europeu pertencente ao Tratado de Schengen são:
- Seguro saúde com cobertura em 30 mil euros (é só pedir na seguradora o seguro que atenda as especificações de Schengen, fácil)
- Comprovante de estadia. Sempre é mais fácil se for uma reserva de albergue, hotel ou até o airbnb (veja Tipo de Hospedagem). Agora se for casa de amigo ou parente, ou até couchsurfing, fica mais difícil, pois precisa ser uma carta e cada país tem suas especificidades sobre a carta. Sempre consulte o site do consulado do país de chegada
- Comprovante de recursos financeiros suficientes para sustentar sua viagem. De novo, cada país tem sua quantia. A Espanha, uma das principais portas de entrada na Europa, exige o equivalente a 64,14€ por dia de permanência por pessoa, com um mínimo equivalente a 577,26€ por pessoa. Valem como comprovante de recursos dinheiro ou cartão de viagem no estilo Visa MoneyTravel ou Amex Global Travel. Normalmente as pessoas imprimem o extrato online, mas já li na internet que às vezes podem encrencar com isso. As centrais de atendimento ao cliente dos cartões podem emitir a carta alfandegária com o saldo do cartão e enviar para seu email, mas o prazo de solicitação é 72 horas antes da data de viagem.
- Documentação válida, passaporte válido para o período da viagem, e normalmente há a exigência de no mínimo de seis meses de validade. Também deve apresentar passagem de saída do Espaço de Schengen dentro dos 90 dias permitidos.
Vale lembrar que não brasileiros não precisam de visto prévio para visitar países do Tratado de Schengen por um prazo máximo de 90 dias a cada 6 meses para fins de turismo ou visita, sem qualquer atividade remunerada. Eu não tive qualquer problema com imigração, sempre foi muito rápido, mas eu também sempre tinha toda a documentação exigida e um pouco mais. Afinal, acredito muito na Lei de Murphy, melhor não arriscar!
- Moeda: Antes de tudo, faça seu orçamento de viagem em Euro. Assim, quando estiver em algum país você facilmente poderá controlar seus gastos fazendo a conversão para Euro. Nestes países todo mundo faz a conversão rapidamente e é fácil descobri-la, muito mais do que para o Real. E, vamos combinar, viajando ninguém quer ficar um tempão fazendo contas. Sempre chegue no país também com um pouco de moeda local. As taxas para trocar a moeda em aeroportos e estações de trem tendem a ser mais altas sempre. Mas não precisa sair do Brasil com todas as moedas, ainda mais se o período de viagem for longo como o meu, sempre tem casas de câmbio para fazer a transação. Os cartões de viagem da Visa e Amex também sacam dinheiro na moeda local, com conversão automática do dia. Podem facilitar!
É isso aí! Boa viagem!